quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Caderno de Maya - Trechos

“…Sou um obelisco de cabelos pintados de quatro cores primárias com uma argola no nariz. ……. Os vestígios de verniz azul nas minhas unhas roídas, os jeans encardidos e as botas da tropa pintadas com spray cor-de-rosa, que arranjei numa loja do Exército de Salvação quando era mendiga.
-Sou Manuel Arias – apresentou-se o homem em inglês.
Olá! O FBI, a Interpol e uma máfia criminosa de Las Vegas andam atrás de mim – anunciei-lhe de rompante, para evitar mal-entendidos.
- Os meus parabéns! – respondeu." p.22
“… despedi-me do cão, mas este tinha outros planos. Sentou-se a meus pés varrendo o chão com a cauda e sorrindo como uma hiena. Tinha-me feito o favor de me distinguir com a sua atenção e agora eu era a sua afortunada humana. Mudei de tática.
- Shoo! Funcking dog! – gritei-lhe em inglês.
O cão não se mexeu, enquanto o primo observava a cena com pena.
- não se preocupe, menina, podemos levar o seu Fakin – disse por fim.
E desta forma, aquele animal acinzentado ganhou o seu novo nome, quando talvez na sua vida anterior se chamasse Príncipe.” P. 21,22….
Educação
“A minha boa madrasta nunca se interpôs entre os meus avós e eu, embora deva tê-la chocado a forma errática como me educavam. É verdade que me mimaram em demasia, mas esta não foi a causa dos meus problemas, como suspeitavam os psicólogos com quem me confrontei na adolescência. A minha Nini criou-me à chilena, com comida e carinho em abundância, regras claras e algumas palmadas, mas não muitas. Certa vez, ameacei denunciá-la à polícia por abuso de menores e deu-me uma pancada com a concha da sopa que me fez um galo na cabeça, o que cortou a minha iniciativa pela raiz.” p. 60…..
Curanto
…curanto, a refeição típica de Chiloé, abundante e generosa, e também uma cerimónia comunitária. …As mulheres picaram tomate, cebola, alho e coentros para o tempero e, mediante um aborrecido processo, fizeram milcao e chapelele, uns pastéis de batata, farinha, gordura de porco e torresmos – horríveis se querem saber a minha opinião -, enquanto os homens cavaram um buraco grande e colocaram no fundo um montão de pedras, em cima das quais acenderam uma fogueira. Quando a lenha acabou, as pedras estavam incandescentes …  Os cozinheiros de curanto colocaram os tachos de barro sobre as pedras para recolher os líquidos da cozedura, que, como bem se sabe, são afrodisíacos, e começaram a dispor em camadas os chaleles e mlicao, as carnes de porco, cordeiro e frango, moluscos, peixe, legumes e outras delícias que não anotei, taparam tudo com panos brancos molhados, enormes folhas de nalca, um saco que saía do orifício como uma fralda e, por último, areia. A cozedura levou mais deuma hora e, enquanto os ingredientes se transformavam, no segredo do calor, nos seus sumos e fragrâncias mais íntimos…” p. 60, 61
Os especialistas sabiam a altura exata em que estariam cozidos os tesouros culinários metidos no buraco e retiraram a areia com pás, levantaram delicadamente o saco, as folhas de nalca e os panos brancos, então subiu ao céu uma nuvem de vapor perfumada com deliciosos aromas do curanto.” P.62
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Morte
“Nos seus últimos dias, mal podia engolir umas colherinhas de iogurte e uns golinhos de água. Quase não falava, mas também não se queixava. Passava horas a pairar numa dormência de morfina, aferrado à mão da sua mulher ou à minha. Duvido que soubesse onde estava, mas sabia que nos amava. A minha Nini continuou a contar-lhe contos até ao final, quando o meu avô já não os podia compreender mas a cadência da sua voz o embalava. …
Eu murmurava orações que eu própria inventara, na cozinha, na casa de banho, na torre, no jardim, em qualquer parte onde me pudesse esconder, e suplicava ao Deus de Mike o`Kelly que tivesse piedade de nós, mas este permanecia remoto e mudo. A minha pele ficou coberta de manchas vermelhas, o cabelo caía-me e roía as unhas até fazer sangue.
A minha Nini ligava-me os dedos com fita adesiva e obrigava-me a dormir de luvas. Não podia imaginar a vida sem o meu avô, mas tão-pouco conseguia suportar a sua lenta agonia acabei a rezar para que morresse depressa e deixasse de sofrer. Se me tivesse pedido, ter-lhe-ia ministrado mais morfina para o ajudar a partir; era mais fácil, mas o meu avô nunca o fez.” P. 68, 69
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Luto
“Nos três anos que se passaram desde a morte do meu avô, falei dele muito raramente. Este facto criou-me vários problemas com os psicólogos …que queriam obrigar-me a “resolver o meu luto”, ou algo do estilo. Há gente que acha que todos os lutos se parecem e existem fórmulas e prazos para os ultrapassarmos. A filosofia estóica da minha Nini é mais adequada a estes casos: «chamam-nos a sofrer, é cerrar os dentes»,  costumava dizer. Uma dor assim, dor da alma, não se tira com remédios, terapia ou férias. Uma dor assim sofre-se simplesmente, a fundo, sem atenuantes, como deve ser.” P.69
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Tiradura
Uma Tiradura é algo único no mundo, tenho a certeza, consiste em transferir uma casa de um lado para o outro navegando pelo mar, à boleia de um par de lanchas, e depois arrastá-la por terra com seis juntas de bois para a colocar no sítio destinado. Se um chilote vai viver para outra ilha ou lhe seca o poço e tem de se deslocar uns quilómetros para obter água, leva a casa inteira consigo, como um caracol. Devido à humidade, as casas chilotas são de madeira, sem fundações, o que lhe permite rebocá-las sobre a água e transportá-las sobre troncos. A tarefa realiza-se através de uma minga em que vizinhos, parentes e amigos deitam mãos ao trabalho. Uns dão lanchas, outros os bois e o dono da casa dá a bebida e a comida…” p. 191
…..Espanhol dos Chilenos
Queria… praticar o espanhol aprendido nas aulas e nos livros, tão diferente da língua falada pelas pessoas.
Nos primeiros dias neste país não entendia nada, como me sucedeu a mim, porque os chilenos usam imensos diminutivos, falam a cantar e a correr, comem a última sílaba de cada palavra e aspiram os «S». p.194

Isabel  Allende; Nov 2011; “O caderno de Maya”  Porto Editora

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